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Alcouceiras, vulgivagas e zabaneiras

Luis Fernando Verissimo

Eu ainda sou do tempo do "randevu". Era como se chamavam os que seriam, tecnicamente, lugares para encontros - do francês rendez-vous - mas eram mesmo lupanares, casas de tolerância, prostíbulos. E só aí já são mais três termos que também envelheceram, se bem que nenhum tanto quanto "randevu".

Todo o vocabulário do comércio do sexo envelheceu. Ele já tinha um tom meio antigo mesmo quando era corrente: meretrício, proxenetismo, rufianismo... Com o tempo e com a revolução sexual, as palavras ficaram obsoletas. As atividades a que se referem continuam, claro, mas os seus nomes hoje soam como relíquias de outra época, como "cabriolê" ou footing (sim, eu ainda sou do tempo do footing).

"Garota de programa" é um termo relativamente recente. Não é exatamente um eufemismo, porque o "programa" não envolve, necessariamente, sexo. Jornais como o International Herald Tribune, que circula muito entre executivos europeus, estão sempre cheios de anúncios de "escorts", moças que fazem bonito como acompanhantes, ajudam a fechar negócios ou simplesmente emprestam um ombro macio para o executivo se lamuriar. Se rola ou não sexo depende do serviço contratado, mas ninguém as chamaria de rameiras, marafaias, michês, mulheres da vida, quengas, perdidas, decaídas, alcouceiras, vulgivagas, zabaneiras ou à toas.

Agora mesmo, a palavra "cafetina" anda nos jornais. Ou "cafetina capixaba", que é como todos se referem a Andréia Schwartz, a estrela do momento. Ela arranjava acompanhantes para homens importantes, como o governador de Nova Iorque, que acabou tendo que renunciar, e, segundo diz, tinha "gente muito grande" entre os seus clientes.

Desde que a bossa-nova chegou aos Estados Unidos, nenhum brasileiro tinha influenciado tanto a vida americana quanto a Cafetina Capixaba. E ela trouxe de volta ao nosso convívio outro nome antigo para uma atividade atual. Andei tentando descobrir a origem de "cáften", de onde vem "cafetina", e não passei de uma vaga referência ao lunfardo argentino, possivelmente um caminho falso. Aceito sugestões.

A Cafetina Capixaba, provavelmente, comercializará a sua lista de "gente muito grande" e causará enorme sensação. Ou não. Talvez nos Estados Unidos. Aqui, se aparecesse um grande nome brasileiro entre os clientes, seria pouco provável que obtivesse a mesma repercussão que revelações do tipo têm entre os americanos. Não faz muito falou-se em convocar uma conhecida, vá lá, arranjadora de acompanhantes de Brasília para depor numa das nossas CPIs da corrupção. Não lembro no que deu, o que significa que não foi nada memorável. Não houve nem grande curiosidade a respeito, do público ou da imprensa. A não ser que a nossa americanização chegue a esse ponto, nunca se verá um político brasileiro anunciando a sua renúncia por causa de uma escapada sexual flagrada, com a esposa estoicamente solidária ao seu lado. Uma cena que, nos Estados Unidos, já adquiriu a previsibilidade de um ritual.

No tempo dos "randevus", meretriz era meretriz, sem variações ou graduações. A tal revolução sexual não substituiu o sexo comprado pelo sexo espontâneo e sem culpa, mas ajudou a acabar com essa estigmatização. Hoje, as mulheres transam com naturalidade, sem compromisso ou comércio e sem o risco de serem chamadas por um dos 117 sinónimos de mulher da vida. E até as que se vendem são profissionais entre profissionais, competentes no seu negócio e - pelo menos no nível em que atuava a Cafetina Capixaba - conscientes do seu poder.


Domingo, 30 de março de 2008.



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